"Até a Máfia tem etica"
Quando comecei a entender um pouco, ou talvez nada, de política, lá pelos meus 14 anos, eu adorava assistir a debates. Adorava sonhar com o futuro glorioso do país. Era praticamente a mesma sensação de quando você joga na Mega-Sena acumulada e começa a fazer planos mirabolantes com aquele dinheiro que, muito provavelmente, nunca vai existir.
Você paga o jogo para sonhar. Essa é a verdade.
Mas, enfim, voltando à política.
Vamos ser sinceros: o FHC, ou melhor, os responsáveis pela criação do Real, foram os primeiros grandes heróis brasileiros da minha geração. Afinal, conseguiram livrar o Brasil daquela aberração chamada hiperinflação. Depois, veio a reeleição e a vida seguiu.
Logo em seguida, começou a surgir por aí a história de que um homem que nunca tinha trabalhado de verdade, vindo lá do Nordeste, seria o grande Herói Nacional. O homem que iria enfiar a faca nos patrões, defender com unhas e dentes o pobre coitado do Trabalhador e, finalmente, colocar o Brasil nos trilhos.
Talvez tenham surgido outros heróis nesse intervalo. Minha memória não é tão boa assim para acompanhar toda essa produção industrial de salvadores da pátria.
Até que apareceu um tal de Sérgio Moro.
Moro prendeu o Herói dos Trabalhadores e, imediatamente, ganhou sua própria capa de herói. Mais um grande salvador nacional nasceu. O homem que enfrentaria os poderosos, acabaria com a corrupção e colocaria os criminosos atrás das grades.
Só que, alguns anos depois, o herói virou rato.
E virou rato graças a um novo herói que surgiu depois de um ato com milhares de outros heróis, que ajudaram a jogar a Escolhida para fora do Planalto. De repente, qualquer pessoa ligada ao partido do Herói dos Pobres passou a ser tratada como lixo nacional.
Era hora de um novo salvador.
E eis que surge, das profundezas do baixo clero, um novo herói brasileiro.
Dizia-se que ele seria o Herói da Moralidade. Agora sim! Acabariam os ratos, a corrupção, a velha política e todos os males do país. Nascia o Herói Anti-Sistema.
Claro que havia um pequeno detalhe: o sujeito passou anos mamando nas tetas da República.
Mas isso era apenas um detalhe. Afinal, heróis não precisam ser coerentes.
E não era apenas ele. Toda a família parecia ter encontrado seu próprio caminho para o maravilhoso mundo da política brasileira.
Então veio uma onda de vírus.
E o nosso Herói da Moralidade fracassou.
Talvez porque fosse atlético e viril demais, resolveu tratar o vírus como uma mera gripezinha, dessas que se resolvem com água. Nem precisava ser benta.
Nova eleição.
E o Herói dos Pobres e dos Trabalhadores derrota o Herói da Moralidade.
Os fiéis do Herói da Moralidade, inconformados com a derrota, fazem uma anarquia e, no meio de toda aquela confusão, nasce mais um herói brasileiro.
Dessa vez, não era apenas um herói.
Era o Rei de todos.
O Herói da Democracia.
E assim foram passando os anos, até descobrirmos que o Herói da Democracia talvez não tivesse exatamente tanto de democrático e republicano quanto seus fiéis imaginavam.
Mas não há problema.
Porque o Brasil é uma fábrica de heróis.
E agora surge mais um.
O Herói de DEUS!!!!
Enquanto os heróis são trocados, presos, desconstruídos, canonizados e depois novamente demonizados, o povo continua lá.
Infeliz.
Esperando pelo próximo salvador.
Acreditando que, dessa vez, finalmente apareceu alguém diferente. Alguém que vai colocar tudo no lugar. Alguém que vai acabar com a corrupção, salvar a economia, defender o povo, destruir os inimigos e, quem sabe, transformar o Brasil no país do futuro.
De novo.
E de novo.
E de novo.
A verdade é que toda vez que se cria um herói, alimenta-se um Coringa.
E o mais curioso é que, no Brasil, parece que nunca faltam heróis.
Nem Coringas.
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