E aí, senhores, tudo bom com vocês?
Depois de passar alguns bons anos perseguindo o milhão, finalmente cheguei lá. E, como todo bom ser humano que acabou de conquistar alguma coisa, a primeira pergunta que vem à cabeça não é “o que eu faço agora?”.
É:
E se eu parar de trabalhar?
Calma, chefe. Não estou dizendo que vou pedir demissão amanhã, colocar uma bermuda, comprar uma passagem só de ida para a Bahia e passar o resto da vida tomando cerveja olhando para o mar.
Embora a ideia seja tentadora.
A questão é outra. Depois de acumular um patrimônio considerável, comecei a pensar em quanto tempo esse dinheiro poderia sustentar minha vida caso eu decidisse, por algum motivo, simplesmente não depender mais do meu salário.
E aí entra a famosa regra dos 4%.
Resolvi fazer uma pequena experiência usando os meus próprios números históricos de rentabilidade.
Peguei um patrimônio inicial de R$ 1.107.359 e simulei o que teria acontecido se eu tivesse me aposentado naquele momento e começado a retirar dinheiro da carteira.
A ideia foi testar duas maneiras diferentes de aplicar a famosa regra dos 4%.
E o resultado ficou interessante.
A famosa regra dos 4%
Para quem nunca ouviu falar, a ideia é relativamente simples.
Você acumula um patrimônio e, no primeiro ano da aposentadoria, retira 4% dele para viver.
Se você tivesse R$ 1 milhão:
R$ 1.000.000 × 4% = R$ 40.000
Ou seja, R$ 40 mil por ano, ou aproximadamente R$ 3.333 por mês.
A promessa implícita é que, mantendo uma carteira diversificada e uma taxa de retirada razoável, o patrimônio teria boas chances de durar por um período bastante longo.
Obviamente, não existe mágica.
O mercado pode cair, você pode viver muito mais do que imaginava, pode gastar mais do que deveria, pode aparecer um governo querendo “ajudar” seu patrimônio a evaporar e, principalmente, os retornos não aparecem de maneira bonitinha e organizada.
Por isso achei interessante fazer o teste usando os meus próprios rendimentos históricos.
Minha carteira contra a aposentadoria
Nos dados utilizados na simulação, os rendimentos nominais anuais foram:
| Ano | Rendimento |
|---|---|
| 2016 | 11,19% |
| 2017 | 12,56% |
| 2018 | 5,46% |
| 2019 | 11,90% |
| 2020 | 11,13% |
| 2021 | −2,75% |
| 2022 | −3,58% |
| 2023 | 19,08% |
| 2024 | 6,72% |
| 2025 | 12,52% |
Como dá para perceber, não foi exatamente uma linha reta.
Tivemos anos bons, anos ruins, dois anos consecutivos de queda e depois um baita retorno em 2023.
Ou seja, é justamente o tipo de sequência que torna esse tipo de simulação interessante.
Parti de R$ 1.107.359 e comecei a retirar dinheiro todos os anos.
Só que fiz de duas maneiras diferentes.
Fórmula 1: sacar 4% do patrimônio todos os anos
A primeira é a mais intuitiva.
Todo começo de ano eu olho para o patrimônio e penso:
“Quanto temos aqui?”
Depois pego 4%.
Se tenho R$ 1 milhão, retiro R$ 40 mil.
Se no ano seguinte tenho R$ 1,2 milhão, retiro R$ 48 mil.
Se tenho R$ 800 mil, retiro R$ 32 mil.
É simples.
O problema é que a renda para viver fica variando conforme o patrimônio.
| Ano | Patrimônio inicial | Retirada anual | Retirada mensal | Rendimento | Patrimônio final |
|---|---|---|---|---|---|
| 16 | R$ 1.107.359 | R$ 44.294 | R$ 3.691 | 11,19% | R$ 1.182.053 |
| 17 | R$ 1.182.053 | R$ 47.282 | R$ 3.940 | 12,56% | R$ 1.277.265 |
| 18 | R$ 1.277.265 | R$ 51.091 | R$ 4.258 | 5,46% | R$ 1.293.135 |
| 19 | R$ 1.293.135 | R$ 51.725 | R$ 4.310 | 11,90% | R$ 1.389.175 |
| 20 | R$ 1.389.175 | R$ 55.567 | R$ 4.631 | 11,13% | R$ 1.482.079 |
| 21 | R$ 1.482.079 | R$ 59.283 | R$ 4.940 | −2,75% | R$ 1.383.626 |
| 22 | R$ 1.383.626 | R$ 55.345 | R$ 4.612 | −3,58% | R$ 1.280.768 |
| 23 | R$ 1.280.768 | R$ 51.231 | R$ 4.269 | 19,08% | R$ 1.464.084 |
| 24 | R$ 1.464.084 | R$ 58.563 | R$ 4.880 | 6,72% | R$ 1.499.958 |
| 25 | R$ 1.499.958 | R$ 59.998 | R$ 5.000 | 12,52% | R$ 1.620.185 |
O resultado é interessante.
Comecei com R$ 1,107 milhão.
Durante os dez anos, retirei aproximadamente R$ 534 mil.
E mesmo depois de todas essas retiradas, terminei o período com aproximadamente:
R$ 1,62 milhão.
Minha retirada mensal, que começou em aproximadamente R$ 3.691, chegou a R$ 5.000 em 2025.
Nada mal.
Mas existe um problema.
Se eu estivesse realmente aposentado, eu provavelmente não gostaria de chegar ao supermercado em 2025 e descobrir que meu dinheiro de aposentadoria compra menos coisas do que comprava em 2016.
A inflação existe.
E é aí que entra a segunda versão.
Fórmula 2: os 4% corrigidos pela inflação
Essa é a versão que acho mais interessante.
No primeiro ano, continuo retirando 4% do patrimônio.
No meu caso:
R$ 1.107.359 × 4% = R$ 44.294
Ou aproximadamente:
R$ 3.691 por mês.
Só que no ano seguinte eu não olho novamente para o patrimônio para calcular os 4%.
Eu simplesmente pego os R$ 44.294 e corrijo pela inflação.
Se a inflação foi de 6,29%, a retirada passa a ser:
R$ 44.294 × 1,0629 = R$ 47.081
E faço isso ano após ano.
A ideia é manter o poder de compra da retirada.
Assim, se o patrimônio estiver subindo, ótimo.
Se estiver caindo, azar do patrimônio.
A aposentadoria continua recebendo sua correção pela inflação.
| Ano | Patrimônio inicial | Retirada anual | Retirada mensal | Rendimento | Patrimônio final |
|---|---|---|---|---|---|
| 16 | R$ 1.107.359 | R$ 44.294 | R$ 3.691 | 11,19% | R$ 1.182.053 |
| 17 | R$ 1.182.053 | R$ 47.080 | R$ 3.923 | 12,56% | R$ 1.277.492 |
| 18 | R$ 1.277.492 | R$ 48.465 | R$ 4.039 | 5,46% | R$ 1.296.144 |
| 19 | R$ 1.296.144 | R$ 50.253 | R$ 4.188 | 11,90% | R$ 1.394.189 |
| 20 | R$ 1.394.189 | R$ 52.419 | R$ 4.368 | 11,13% | R$ 1.491.150 |
| 21 | R$ 1.491.150 | R$ 54.636 | R$ 4.553 | −2,75% | R$ 1.396.966 |
| 22 | R$ 1.396.966 | R$ 60.133 | R$ 5.011 | −3,58% | R$ 1.289.015 |
| 23 | R$ 1.289.015 | R$ 63.614 | R$ 5.301 | 19,08% | R$ 1.459.159 |
| 24 | R$ 1.459.159 | R$ 66.591 | R$ 5.549 | 6,72% | R$ 1.486.134 |
| 25 | R$ 1.486.134 | R$ 69.728 | R$ 5.811 | 12,52% | R$ 1.593.683 |
Aqui a coisa fica ainda mais interessante.
A retirada começou nos mesmos R$ 3.691 mensais.
Mas, graças à correção pela inflação, chegou a aproximadamente:
R$ 5.811 por mês em 2025.
Durante o período, foram retirados aproximadamente R$ 557 mil.
E ainda sobraram aproximadamente:
R$ 1,59 milhão.
Ou seja, depois de dez anos vivendo da carteira, eu ainda teria mais patrimônio nominal do que tinha quando comecei.
Mas qual das duas é melhor?
Calma.
Não vou cometer o pecado de transformar isso em uma competição de planilha e declarar um campeão.
As duas regras têm características diferentes.
Na primeira, retiro 4% do patrimônio todos os anos.
Isso faz com que minha renda acompanhe diretamente o tamanho da carteira.
Se o patrimônio cresce, posso gastar mais.
Se o patrimônio cai, tenho que apertar o cinto.
Na segunda, começo com os 4% e depois corrijo a retirada pela inflação.
Isso proporciona uma renda mais previsível em termos de poder de compra, mas coloca mais pressão sobre o patrimônio quando os mercados passam por períodos ruins.
E meus próprios números mostram isso.
Na primeira estratégia, terminei com aproximadamente R$ 1,62 milhão.
Na segunda, aproximadamente R$ 1,59 milhão.
A diferença não foi gigantesca.
Mas existe.
O detalhe que mais me chamou atenção
O mais interessante para mim não foi nem o patrimônio final.
Foi perceber quanto uma carteira de pouco mais de R$ 1 milhão poderia gerar para sustentar uma pessoa.
Começando com R$ 1.107.359, minha retirada inicial seria de aproximadamente:
R$ 3.691 por mês.
Com a correção pela inflação, essa renda chegaria a aproximadamente:
R$ 5.811 por mês em 2025.
E isso considerando apenas o patrimônio investido e os rendimentos históricos da minha carteira nesse período.
Agora vem a parte que me faz olhar para os meus próprios gastos e começar a fazer contas.
Se eu conseguisse manter minhas despesas próximas de R$ 5 mil a R$ 7 mil por mês, dependendo do estilo de vida, não estamos falando de um número completamente absurdo.
Estamos falando de algo que começa a parecer possível.
Não necessariamente hoje.
Mas possível.
E se eu realmente me aposentasse hoje?
Essa é a pergunta que fica.
Tenho pouco mais de R$ 1 milhão.
Se eu simplesmente parasse de trabalhar, provavelmente teria que mudar algumas coisas.
Não poderia continuar gastando como se meu salário fosse infinito.
Viagens teriam que entrar na planilha.
Restaurantes e bares também.
Carro, manutenção, saúde, casa e todos aqueles pequenos gastos que parecem insignificantes individualmente, mas que adoram formar uma quadrilha no final do mês.
E existe ainda um pequeno detalhe chamado:
eu gosto de continuar aumentando o patrimônio.
Depois de passar tantos anos correndo atrás do milhão, seria um pouco estranho chegar lá e imediatamente começar a correr na direção contrária.
Além disso, ainda quero chegar muito mais longe.
O milhão deixou de ser o destino final e virou apenas uma placa na estrada.
Então, por enquanto, a resposta é:
não, eu não vou me aposentar hoje.
Mas a pergunta ficou muito mais interessante.
Antes, eu pensava:
“Quanto preciso juntar para poder parar de trabalhar?”
Agora começo a pensar:
“Quanto tempo falta para o meu patrimônio conseguir pagar minhas contas sozinho?”
E existe uma diferença enorme entre essas duas perguntas.
A primeira coloca o trabalho como protagonista.
A segunda começa a colocar o patrimônio.
Talvez a verdadeira independência financeira seja exatamente esse momento em que você percebe que não precisa necessariamente trabalhar até morrer para pagar as contas.
O dinheiro começa a trabalhar no seu lugar.
E, sinceramente, depois de tantos anos trabalhando para ele, já estava na hora desse vagabundo começar a fazer a parte dele.
Nenhum comentário:
Postar um comentário